Sábado, 26 de Abril de 2008

livra

[A ininterrupta Isabel Castanheira pediu-me que lhe enviasse um texto sobre "O livro da minha vida" para publicação algures. Como conquistei o hábito de guardar apenas os livros que amo, pensei em atirar sem apontar um dardo a uma estante e tinha a tarefa facilitada. Mas as estantes têm portas de vidro e ainda partia qualquer coisa. Monogamia, portanto. Nada me é mais fácil - e honroso - do que fazer o que a dona da melhor livraria das Caldas da Rainha me pede.]

Como se fosse preciso três mil caracteres, incluindo espaços, para apresentar o livro da minha vida. Francamente. Até porque o livro da minha vida não pode ser lido sem ler mais outros dois ao mesmo tempo. O livro chama-se “Poesias” do Mário de Sá-Carneiro (na edição da Ática, evidentemente) e é preciso lê-lo com as cartas do poeta ao Fernando Pessoa. Dois volumes. Da Ática, evidentemente. Pronto. Dito isto, queria agora falar do livro da minha vida. Não há dia que passe sem o ler porque o Daniel Abrunheiro escreve copiosamente. E porque a sua produção é quotidiana e porque é quotidianamente maravilhosa, Daniel Abrunheiro escreve num blog. Por isso o livro da minha vida, leio-o eu diariamente. Mas quem é este Daniel Abrunheiro? Daniel Abrunheiro é o melhor escritor que eu conheço. Só digo isto por ter lido assim para cima de milhares de livros. E quem achar que estou a armar ao pingarelho por ser muito “lido” é porque, simplesmente, tem uma vida realmente estúpida e leu de menos. Por isso vo-lo digo: Daniel Abrunheiro é o melhor escritor que eu conheço. Daniel Abrunheiro é um sestro irreprimível, porque ler tem de gerar no leitor aquilo que a escrita gera no escritor. Geralmente é a proximidade, a aragem, a exalação, por suave que seja, da inteligência e da humanidade. Quando este acometimento nos é tão certo como veemente, ler torna-se coisa indomável. Quando esse empolgamento fica a dever-se, não a calculadas e adestradas figuras de estilo literárias, mas à absoluta e rigorosa imperfeição e bondade da comunhão humana, ler deixa de ser apenas uma urgência culta para se converter numa desapiedada confidência pessoal.

Por isso, já sei como é: leio o livro da minha vida todas as manhãs e em breve num novo título da renascida Portugália terminação do anjo.

Já agora, se fosse parar, náufrago, a uma ilha deserta, um livro seria, com certeza, a última coisa que mais me apeteceria nesse momento ter comigo.

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dabrunheiro.jpg


Daniel Abrunheiro nasceu em 1964, é autor de licor, sabão e sapatos, da Imagens e letras, o preço da chuva, da Pé de página e cronicão | gente do touro de ouro | noite de homens cantores, da Publicenso. Escreve todas as manhãs no blog canildodaniel.blogspot.com e as suas crónicas são semanalmente publicadas no jornal Região de Leiria e O Ribatejo."
publicado por Rui Correia às 14:39
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