Quinta-feira, 15 de Maio de 2008

neurocrata

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Acontece-nos a todos. Vamos visitar uma cidade estrangeira mas temos pouco tempo para o fazer convenientemente. Ou porque estamos de passagem ou porque estamos em trabalho, não temos tempo para dedicar à cidade o tempo que ela merece. Alguns, como eu, preferem meter-se a deambular e descobrir como correm os dias da malta em geral para, assim, descobrir coisas únicas que, necessariamente, a quase mais ninguém interessam. Outros, mais pragmáticos, enfiam-se em autocarros descapotados para visitas de turistas com menos propensão - ou saúde - para uns quilómetros a pé. Nada tenho contra os turistas. Tomara eu ser turista uns duzentos e trinta e cinco dias por ano (mais, também não). Mas a verdade é que sempre achei um bocadinho deprimente andar nesses autocarros Hop&Go, quase sempre por achar que o que se constrói não é o que há de melhor para ver.

Pois hoje, no meu percurso matinal para os escritórios da EACEA, dei por mim no meio de uma turba daquilo que é costume designar por “tecnoburocratas de Bruxelas”. Não me refiro aos políticos. Sobre esses já nada ou quase nada há para saber ou dizer de novo. Refiro-me à multidão de técnicos e de peritos que aqui trabalham e que têm a função inescapável de resolver todos os problemas que os políticos, por santa imperícia, não se coíbem de inventar. Esta fauna é reconhecível à distância. Fatos leves por cima de camisas de manga curta, óculos de estilo, cãs em vias de desenvolvimento, uma mala de computador muito usada e um colar identificador que permite que esta gente vá almoçar onde só eles podem almoçar e entrar em edifícios bonitos por fora e caros por dentro onde só eles podem entrar.

E muitos. Muita gente. Muito trabalho. Todos activíssimos com muito, muito stress à mistura. Vêm de todo o lado; não só da Europa. Trabalham que se desunham e penso mesmo que isto é pensado desta forma precisamente para que não se percebam as saudades que todos sentem de casa. A quantidade de sex-shops e night clubs que a cidade tem para oferecer prova-nos que o difamado Apparat europeu conhece sigilosas contrariedades.

O certo é que, numa cidade de políticos, alguém tem de trabalhar. Todos vivem a espada de Dâmocles da modernidade comunitária: prazos - ou, para quem prefere buzzwords - deadlines. Todos têm um prazo qualquer a cumprir. E não me refiro ao prazo que realmente todos têm. Têm prazos. Muitas vezes, mais do que um, em simultâneo. Já me disseram que os que não aguentam são os que depois mais criticam a “tecnocracia de Bruxelas”. Enfim, calúnias com bilhete de ida e volta. Existe um claríssimo entendimento por parte de quem aqui trabalha que o labéu de tecnocrata é o que de pior se pode dizer desta gente. Todos fogem do epíteto como de uma ordália infamante. Existe mesmo um trauma eurocrata. Sofre-se de neurocracite aguda - um estado neurótico de extrema sensibilidade ao estigma de eurocracia.

Muito a propósito, tive hoje disto um testemunho hilariante rugido da boca de um destes tristes tigres que aqui vivem. Num briefing de preparação para o estudo de um documento que me designaram para estudar, ouvi o seguinte anúncio: “Por favor evitem todos os acrónimos.” Ora, alguns dos acrónimos utilizados nos documentos servem justamente o propósito de simplificar a leitura dos documentos e para economizar dramaticamente o tempo que se perde com a sua enfadonha repetição por extenso. Por considerar que se tratava de uma exigência sem sentido burocrático nenhum e porque dificultava, obviamente, a redacção dos relatórios, interroguei o coordenador sobre a razão desta exigência. A resposta foi tão demolidora quanto reversível:

“Não usem siglas para não parecermos burocratas.”

Digo-vos, não sendo a primeira vez que aqui venho, acredito sinceramente que devia haver um autocarro que nos levasse a ver esta fauna no seu habitat natural. Hop&Go.
publicado por Rui Correia às 23:37
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