Quinta-feira, 26 de Junho de 2008

hoje

A actualidade desta conversa é quase arrepiante. Dois mestres a esclarecer em detalhe qual o trabalho de casa contra o que é "isento" e "independente". Um livro de estilo para toda a acção política coetânea.

publicado por Rui Correia às 14:54
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11 comentários:
De Rui a 30 de Junho de 2008 às 04:11
100% de acordo.
De Lus Filipe Redes a 30 de Junho de 2008 às 00:31
Bela frase:
A política como usurpação do senso comum gera sempre novos formatos, invariavelmente tóxicos, de institucionalização de supostas "isenções" e "independências". Invariáveis mecanismos, estatizados, de toda a arbitrariedade.
Subscrevo inteiramente!
Estou também totalmente de acordo com o post: é urgente assumir posições críticas contra o que se apresenta como "neutro" e "independente".
Os nossos queridos "gurus" faziam isso de facto, na entrevista apresentada.
A minha crítica é uma "nuance".
Também gostei de Foucault por recusar qualquer modelo e considero a posição de Chomsky, favorável a uma sociedade anarco-sindicalista difícil de concretizar.
De Lus Filipe Redes a 29 de Junho de 2008 às 15:41
Temos um dia de falar de Bourdieu...
Ai, temos, temos...
De Rui a 29 de Junho de 2008 às 12:27
Inda levas mazé uma bordoada. Raio do cão.
De Co a 29 de Junho de 2008 às 09:37
Bourdieu. Ainda não falaram do Bourdieu.
De Lus Filipe Redes a 28 de Junho de 2008 às 23:06
É pá, eu não disse nada disso. Eu nunca li Feuerbach, sequer! Falei da tese 6 sobre Feuerbach, escrita por Marx! Falo de um determinismo económico-social muito amplificado. "Desacreditar" não é "injuriar". O que Foucault disse na entrevista é que a educação, assim como a justiça e a psiquiatria estavam ao serviço do poder de uma classe sobre a outra. Eu achei isto demasiado linear, pois o pensamento de Foucault - por exemplo em "Les Mots et les choses", ou em "l'ordre du discours", que eu conheço bem - é muito elaborado. Já disse o que penso que ele quer dizer quando questiona a Educação.
De Rui a 28 de Junho de 2008 às 20:19
Pink Floyd e Feuerbach, Foucault a injuriar professores? Vai para aí uma confusão grande, Luís. Sabes melhor que isso.
De luis.filipe.redes@netvisao.pt a 28 de Junho de 2008 às 18:44
Trazes mais achas para a fogueira. Assim, nunca mais saímos daqui.
A conversa televisiva é mesmo limitada. Sei que Foucault e Chomsky têm uma obra que ultrapassa de longe os enunciados acima referidos. Limito-me à entrevista.
Não reduzo as Teses sobre Feurbach a nada. Refiro-me apenas a uma aspecto, talvez uma delas, a tese 6, aquela que, precisamente, reduz a natureza humana às relações sociais: "Feuerbach resolve a essência religiosa na essência humana. Mas, a essência humana não é uma abstração inerente a cada indivíduo. Na sua realidade, ela é o conjunto das relações sociais".
Pois, temos aqui algo substantivo: há uma natureza humana. Estou com Chomsky nisto: "Creio que o ser humano necessita de liberdade para ser criativo". O problema é: o que é que está na natureza humana e o que é que muda histórica e socialmente? Por exemplo, o homem fala, faz parte da sua espécie falar. Agora, ele acrescenta outra coisa: o ser humano é criativo e precisa de liberdade.
Quando Foucault fala sobre o poder político dissimulado na educação, por exemplo, está aí em causa, a ideia de que estamos nas escolas a reproduzir a classe dominante. Tudo o que tem sido feito desde então é para desacreditar o professor. Lembra-te da canção dos Pink Floyd "Teacher, leave the kids alone". Podemos discutir isto com toda a clareza. Queremos uma sociedade sem classes? Toda a actividade humana conduz à distinção entre indivíduos, alguns superam a maioria; outros ficam muito aquém da média. Deve a escola escamotear as diferenças ou exacerbá-las? Para que servem as notas?
De Rui a 28 de Junho de 2008 às 14:41
Muito obrigado pelo teu excelente comentário, Luís. Honras-me. Estive ontem a ver na televisão o concerto dos noventa anos do Nelson Mandela, no extraordinário e bucólico Hyde Park em cuja relva já me deitei várias vezes a pensar em coisa nenhuma. O concerto estava maçador até ao momento em que entrou em palco um tipo que admiro há muitos anos, o Stephen Fry, que, em breves minutos, disse a única coisa importante da noite, naquele jeito displicente e gracioso que ele tem. Para caracterizar o que Mandela representa, juntou as qualidades que um político, um líder, deve possuir para merecer a influência que desejamos que possua: "simplicidade, coragem, autoridade e compaixão". Já aqui volto.

Como diria o Miguel Sousa Tavares numa conferência em cujo painel ele participava, logo a seguir ao discurso do Chomsky, "Não concordo com quase nada do que acabou de dizer, Sr. Chomsky". Pois, assim estou eu com o teu comentário, Luís. Não porque o enquadramento cronológico que ali fazes possua alguma incorrecção, mas porque há ali coisas superlativas (sintetizar as Teses sobre Feuerbach ao preceito social que apontas é uma redução bruta que não diz quase nada da importância desse texto, nomeadamente em matéria da sua consequência prática quanto ao lugar da religião - podia ser outro o tema mas este é consabidamente emblemático para o marxismo - na assunção dos conceitos basilares da existência humana, e desse modo da passagem do discurso intelectual ao movimento da superação das dificuldades, elemento dinâmico que nem o próprio marxismo conseguiria hstoricamente assegurar). É absolutamente exorbitante - ou redutor, o que dá no mesmo - considerar que todo aquele discurso vive refém de uma simples e recente contestação social a todas as entidades, quaisquer que sejam, desde que institucionalizadas (o Maio de 68 ou quejandos) e associares marxismo áquilo tudo e pronto é assim uma coisa de terraplanagem intelectual.
Como ilustração, o alcance da tese de Foucault, e não creio nada que neste clip se revele a distinção abissal que fazes entre os discursos de Foucault e Chomsky, (assumindo deste modo a acepção pela qual o anti-americanismo de Chomsky é, quase sempre inclinadamente, tomado por marxismo) entronca numa tese notável pela qual o livre arbítrio humano intervém historicamente na institucionalização do que não conhece. Não se trata meramente de um arremessar teórico de pedras aos carros de polícia dos burgueses ou uma óbvia oposição ao determinismo social . O interessante desta tese de Foucault é o de verificar como essa intervenção constitui a premissa original para toda a supressão da liberdade, ou seja do próprio livre arbítrio. Esta "interrupção" (o termo é muito debatido) é o que sempre me cultivou desde os anos 80 tanto naquele texto de Marx como nos livros de Foucault, nomeadamente dois que simplesmente idolatro: a história da loucura e o surveiller et punire. Considerar Foucault simplesmente um porta voz marxista tout court é algo inesperado no teu comentário. De outro lado, entender o trabalho de Chomsky como arredado deste enredo marxista é algo também muito disputável.
A pretensa "independência e isenção" das instituições e a sua desconstrução é um elemento que ultrapassa em muito a mera visão marxista, anti-burguesóide. Envolve um elemento de síntese pós marxista (provavelmente um dos poucos "pós" que fazem sentido literal). Tipifica um pensamento que permanece insuperado em meu fraquíssimo entender, e cujas raízes se consolidam nos nossos dias conduzindo presumivelmente a uma perigosa irracionalidade crítica que conduz à frustração de toda a institucionalização, o que, em matéria de representatividade política, nos conduz para um Estado não estatal em que a autoridade é tida por prejudicial. Daqui a proximidade conveniente entre Chomsky e Foucault. Mas é aqui que me distancio do que defende Chomsky. Por muito lancinante que o mundo me seja, é intolerável pretender às Segundas feiras que existe falta de autoridade e civismo e às Terças que a autoridade é excessiva e vivemos um Estado orweliano e supressor das liberdades individuais (Guantanamo, Argélia, Zimbabué, Paquistão, Myanmar). O que Foucault permitiu, e que o distancia de Chomsky, na superação posterior que é indispensável fazer de todo o pensamento social, é justamente enterrar o marxismo palerma e corrupto e inaugurar uma modernidade contestatária mas não à Maio de 68, à Sartre. Foucault antecipa o politicamente correcto - que é tudo menos um postulado linguístico - descobre-o como o mais premente perigo contemporâneo. A política como usurpação do senso comum gera sempre novos formatos, invariavelmente tóxicos, de institucionalização de supostas "isenções" e "independências". Invariáveis mecanismos, estatizados, de toda a arbitrariedade.
É aqui que me aproximo do Stephen Fry que, não sendo um filósofo citado, é dono do melhor senso comum ao qual prefiro associar-me. Colocar "simplicidade e autoridade" na mesma frase não é uma frase feita. De todo. É algo que se me impõe quotidianamente como um desígnio, uma ambição, tanto pessoal como pública.

De Co a 28 de Junho de 2008 às 13:39
Jesus Senhor, Luís Filipe. Jesus Senhor.

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