É um atrevimento, pois é, mas dizei-me se havia alguma possibilidade de não roubar este poema deslumbrante
"acontece-me sonhar com pássaros que falam
ao acordar compreendo que eram pessoas afinal
mas pessoas que nunca conheci nem conhecerei
os pássaros são pessoas de que não sabemos o nome
sucede-me com alguma frequência não sonhar
calo-me num sítio discreto e olho as árvores restantes
o vento incendeia-as de respiração convocatória
eu compreendo e calo-me mais ainda e não sonho
nunca levanto voo e não respiro nunca e então
então é que sonho com esta pessoa e aquela
e depois vou para chamá-las pelo nome e elas voam
nunca me conhecem nem conhecerão."
Não sei do que gosto mais. Se da dança, se do riso do pai, se do facto de a Beyoncé ser a mulher mais deslumbrante do planeta na opinião de um certo amigo meu matosinhense, juízo ponderado que não me atreveria a contestar.
Não sou pouco dado a aplausos. Mas mesmo assim destaco o meu aplauso de hoje. Foi absolutamente exemplar o desempenho de Jorge Lacão no debate sobre casamento homossexual. Equilíbrio informado e uma coerência fluente constituem sempre oportunidades que quase nunca nos são facultadas em televisão. Hoje sim. Hoje revi-me integralmente no que sobre o tema defende o partido do governo. Já tinha algumas saudades, confesso.
Actualmente, ela vive um momento, dir-se-ia, púbere. Tem, afinal, 16 anos. Fez agora em Setembro. Vive intensamente essa escaramuça que é a adolescência. As hormonas salteiam, como pipocas, como é costume nestas idades e todos os dias ela se estuda ao espelho, apurando poses minuciosamente esculpidas.
Abrem-se-lhe, já o sabemos, várias possibilidades de futuro. Nada de muito promissor, como sempre nestes infantes. O futuro é quase sempre feito assim. Do mal o menos. Domá-lo menos é, também, a nossa sina trágica, à medida que vamos envelhecendo. Mas é interessantíssimo acompanhar o seu caminho. Dar-lhe tempo. Dar tempo ao tempo. Vê-la assim como a tenho visto, volta e meia deprimida e revoltada, é algo com que ainda não sei lidar bem, mas isso são dores minhas, a que ela não tem que ligar, ocupada que está consigo mesma e com os seus enredos.
Ela aí vai.
Tudo mo recomenda: nestas idades, não podemos estar sempre a dar-lhe uma mãozinha. É forçoso que ela aprenda a tomar decisões sozinha, e que perceba que algumas delas virão a afectar outras pessoas. É assim a vida. Tem de saber virar-se sozinha. É dessas decisões que nasce na adolescente a sua madureza; é dessas decisões que se fará a sua empolgante e temerária admissão no mundo implacável dos adultos.
Resta-lhe fazer boas escolhas. É que, bem vistas as coisas, já é crescidinha. Alguma coisa terá aprendido em 16 anos. Fez agora em Setembro.
"Estudou Filosofia na Universidade Nova de Lisboa, tendo abandonado a universidade sem obter o diploma de licenciatura. Mais tarde obteve o diploma de licenciatura no Curso de Relações Internacionais na agora defunta Universidade Independente, dias antes da sua nomeação para a Administração da Caixa Geral de Depósitos, cargo que deixou de exercer para assumir a presidência do Banco Comercial Português. Um mês e meio depois de ter abandonado a Caixa Geral de Depósitos para assumir a vice-presidência do Banco Comercial Português, foi promovido no banco público ao escalão máximo de vencimento, o nível 18, o que terá reflexos para efeitos de reforma."
A sanha do Miguel Sousa Tavares descobriu que ele concluiu uma pós-graduação em 2004, o que não tem mal nenhum se exceptuarmos o facto improvável de ter concluído a sua licenciatura em 2005.
Se tudo isto fosse verdade - e não é, evidentemente - tinha um nome: Salto à Vara.
A morte de Lévi-Strauss compreende o desaparecimento de uma figura cuja obra e pensamento têm em todos nós um alcance inestimável, uma secreta e freática eminência. Para todos os estudiosos das ciências sociais a sua constante e controversa presença é património indelével. O mundo deve-lhe uma melhor compreensão de si mesmo. A ciência, toda a ciência, que não apenas a das humanidades, deve-lhe o valor da humildade científica, dos seus limites e da sua extraordinária capacidade em surpreender novas razões de maravilhamento. A ciência, sempre tão vilipendiada em épocas de enorme cepticismo, teve em Claude Lévi-Strauss muito provavelmente a sua mais norteadora bússola. A dívida é insuspeitável. O que a sua obra fez em mim, por mim, durante aquele determinado momento da vida em que é preciso que alguns livros não possam deixar de ser lidos, é imensurável. Fica, evidentemente. Dívida e obra.
A confirmar-se, o “inesperável” afastamento de Dalila Rodrigues da casa das histórias de Paula Rego é uma renovada verificação de como a frase atribuída a Goebbels, “quando me falam de cultura puxo logo da pistola” deve ser em Portugal virada do avesso. Chega a parecer que, em matéria de cultura, quando alguém falar em políticos deve sacar-se imediatamente da pistola.
Aparentemente não é um nome "consensual" para a Câmara de Cascais. Isto é incompreensível. Um projecto tão eminentemente pessoal, amparado quase intimamente pela pintora, gerando na sua criação um museu belíssimo e trazendo-nos, aos portugueses, um espólio ímpar que outros países disputaram e disputarão ainda, não pode ser sujeito a este ou outro tipo de perturbações. Esta é a sua casa.
Se uma pintora como Paula Rego escolhe a sua conservadora e o faz pessoalmente, para desta forma assegurar o carinho e a atenção que essa sua vida que é a sua obra merece, não pode, quem quer que seja, aparecer a considerar que o nome escolhido pela pintora não se revela “consensual”. Este nome não tem que ser “consensual”. Tem que ser sensual. E deve ser sensual apenas para uma única pessoa. O nome deve ser sensual para a pintora. Dalila é ama de Paula Rego. Entre ela e Paula Rego tem de existir uma dilecção recíproca, serena e demorada para a cultura e a sociabilização daquelas obras, daquele nome.
Neste contexto artístico, tão particular e delicado, aparecer por dá cá aquela palha (ou aquele tacho) um debate político-partidário sobre a “consensualidade” de um nome é um desaforo. Sobretudo pela indesculpável desautorização irresponsável, diria mesmo anti-patriótica, que se impõe sobre o senhorio inquestionável de Paula Rego neste projecto, em todas as matérias deste projecto exemplar.
Uma ofensa absolutamente imperdoável, cujas consequências em breve conheceremos e que prevejo lamentáveis. Foi com este tipo de pequenez que Maria João Pires, a portuguesa, perdeu o seu projecto de Belgais. Restará ainda destruir o que a Casa dos Bicos faz pelo privilégio de podermos em Portugal ter o epicentro da obra de José Saramago, o português. Uma tristeza.
Um mês. Dalila abriu esta casa há um mês. Inqualificável.
É pior a emenda que o soneto. O parecer dos professores catedráticos que Isaltino Morais contratou para elaborarem o recurso que rebate a sua condenação pelo tribunal de Oeiras representa uma definitiva afirmação da sua culpa. Toda a defesa do autarca baseia-se em duas ideias simples: prescrição e obtenção inválida de prova. O que vem comprovar, mais ainda do que qualquer sentença, que o autarca cometeu, de facto, os crimes de que é acusado. A questão coloca-se em saber se o Estado Português vai a tempo de o punir como é devido. Nada mais. A sua candidatura é, pois, uma obscenidade. A sua vitória é uma aldrabice colectiva e compadre, num concelho que reuniu alguns dos melhores candidatos que qualquer concelho pode ambicionar - especialmente Isabel Meireles.
Presumo, pois, que um dia destes se convoque um comício catártico de vitória em Oeiras. Vitória da Justiça sobre a verdade.
Um dos meus maiores embaraços desta campanha eleitoral foi a persistência do Delfim Azevedo em querer que nos outdoors figurasse a imagem de toda a equipa candidata à Câmara Municipal e não, como todos os outros partidos preferiram, dar destaque apenas ao cabeça de lista.
Essa minha frustração não tem nada a ver com modéstias deslocadas; bem pelo contrário. Prende-se, isso sim, com o facto muito pragmático de eu ter uma irreprimível predilecção pelo anonimato que me assegura uma liberdade de gestos e condutas que aqueles cartazes e esta eleição me proibiram de vez. Tenho de me resignar que isto da política traz consigo alguma exposição pública. Ossos.
Na tomada de posse como vereador, os jornalistas acotovelavam-se para tirar as fotografias da praxe. Lá me pus, obediente como sei ser, em sentido para que o fizessem como queriam.
Hoje vi o resultado dessas fotos. Vi a primeira página do Jornal das Caldas e asseguro-vos que me desmanchei descontroladamente a rir. Não é a primeira vez que me rebolo a rir com este jornal pelas decisões de paginação que vai tomando, desde há anos. Mas, desta vez, até a mim me surpreenderam. Curvo-me num misto de pasmo e admiração. Fazer figurar o novo elenco executivo da câmara municipal mesmo ao lado de um sem número de pilas monumentais das Caldas é tão fantástico, mas tão delirantemente fantástico que me deu uma irreprimível vontade de abraçar o paginador, quem quer que ele seja.
Creio que a política ganha muitíssimo com esta abordagem urológica. As pilas é que nem por isso. Dou, evidentemente, os meus parabéns ao brilhante, anónimo e injustiçado artista que tomou tão histórica (histérica?) decisão semântica e lanço já daqui um estridente viva à dignidade das funções púbicas.
E às públicas também, vá lá.
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Aqui fica, para memória futura, esta glande ideia. Até a junção dos títulos é irrepreensível: "Nova câmara: a terra das malandrices" Génio, puro génio.
Comprei o bilhete em Fevereiro. Corri à FNAC para garantir uma primeira fila. O meu amigo Miguel Martinho telefonou-me a confirmar se eu já tinha comprado. Já. Ficámos juntos com mais uns amigos no centro da primeira fila. A Mike Stern Band foi um dos melhores espectáculos de jazz a que já assisti, "prontos". Tão simples como isso.
Estava tudo certo, ontem. Cinema São Jorge, um público conhecedor e conhecido (Joel Xavier, Pedro Madaleno, Filipe Larssen…) , um ambiente caloroso mas exigente, sóbrio mas entregue. E, depois, os seguintes cats: Chris Mihn Doky (b) Randy Brecker (t) Dave Weckl (d) e, claro, Mike Stern (g).
Esta foi a quarta vez na minha vida que vi o Dave Weckl, três das quais com o Chick Corea (Elektric e Acoustic). Tenho por ele a maior admiração, assim como conheço ao detalhe quase todas as minúcias de quase todos os seus cds.
A minha devoção conta-se assim: um dia, há muitos anos, tive um grave acidente de automóvel ao som do Dave Weckl. Quando verifiquei que não morrera e que nada se aproveitava daquele que foi o meu primeiro automóvel, no momento de o deixar nessa chuvosa noite, no meio de toda aquela sucata, quis assegurar-me que, ao menos, recuperava a cassete do Dave Weckl. Tem essa importância.
Mas ontem foi, sem dúvida, a mais deslumbrante exibição de talento a que assisti da sua parte. Absolutamente sublime a sua prestação. Não é sem exagero – nenhum - que é reputadamente o mais prestigiado baterista da sua geração.
Depois, o Randy Brecker, irmão do falecido Michael Brecker que vi e ouvi por duas ocasiões (Seixal e Newport). Os Brecker Brothers são ainda hoje uma banda que escuto com absoluto desvanecimento. Já ofereci o “Out of the loop” umas seis ou sete vezes a amigos agradecidos. Ver o Randy Brecker foi a afirmação dessa admiração antiga. Puro bom gosto e mestria irrepreensível.
Não sigo o Chris Mihn Doky, talento muito jovem mas que já tocou com toda a gente; não fiquei completamente devoto mas o seu domínio é indiscutível. Mas também no meio daquilo tudo quem pode aspirar a proeminências?
Quanto ao Mike Stern é infinito o seu talento, a sua sensibilidade, a sua simpatia, o seu entusiasmo quase desconcertantemente infantil. Dono de um fraseado ininterrupto, sempre com uma inovação melódica indisfarçável, é um exímio malabarista de harmonias. Para um turista de acordes como sou desde sempre, isto é delícia pura. Uma raiz marcadamente blues constantemente enriquecida – subvertida - pelas sofisticadas harmonias que o guitarrista constrói, demolindo ritmos, expectativas, melodias, tempos e medidas, para tornar uma vulgar frase num acontecimento em constante e imprevisível mutação.
Poder. Não esquecer a força e a dinâmica deste concerto, com momentos de filigrana e de poderosa energia. Absoluto domínio de todos os registos.
E isto a dois metros de mim. Literalmente. Ouviamo-lo tocar a sua Yamaha Pacifica (uma monogamia enigmática) quando tinha os volumes cortados. Evidentemente, perante tanta demonstração de quase integral perfeição, no final só nos ocorriam palavrões. Trocámos alguns entre nós. Com riso. Quem toca e conhece esta gente sabe bem do que falo. Foi um desses concertos. Alma cheia. Alimento para três ou quatro meses. Disse adeus aos meus partners in crime e voltei para casa ao som do “One day my prince will come,” mudado – como diria o Herberto Helder – pelo grandinormérrimo Mike Stern.
Que noite, apre.
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Fica aqui um cheirinho, mais funky.
Durante anos na minha escola o sistema de convocação de eventos escolares e informação de professores fez-se recorrendo a um sistema vídeo. Todos os dias, várias vezes ao dia, aquele sistema era actualizado e o seu primeiro ecrã indicava mesmo a hora em que essa actualização havia sido efectuada. Entretanto, porque isto dá trabalho, este sistema deixou de ser utilizado. Voltaram os papéis. A convocação de reuniões, passou a fazer-se desde há uns anos através de uma absurda folha de papel – que havia sido criada com o propósito único de se constituir num memo rápido para acompanhar a leitura dos ecrãs, e facilitar a vida daqueles professores que não tinham tempo para ler todas as mensagens dos ecrãs.
Esse memo foi convertido, por indiligência, em lugar de estilo, apesar das muitas imprecações que este descuido suscitou.
Mas adiante. Sempre que aquele papel, convertido por preguiça em mapa de marcação de reuniões, fica totalmente preenchido, a administração da escola é responsável por colocar uma folha nova. Quando isso não sucede, quando se esquecem de ir lá colocar uma folha nova, tudo colapsa, precisamente porque este papel não é, nem nunca foi, um sistema concebido para convocar reuniões, como acima se explicou.
Pois foi exactamente isso que se passou recentemente na minha escola. Resultado: como durante horas, dias mesmo, ninguém substituía a folha de papel por uma nova, alguém decidiu colocar lá uma folha qualquer para marcar a sua reunião. Muito provavelmente para protestar contra aquele descuido, escolheu uma folha de limpeza das mãos. Acredito sinceramente que não foi inocente esta escolha. E, no ambiente surdo e mudo que se criou entre a CAP e os professores desta escola, sou o primeiro a compreender esta forma de protesto, bem eloquente, inteligente e criativa.
Pois qual é a reacção da gestão da minha escola? Foram a correr saber quem são os malevolentes que utilizaram aquela folha e enviaram-lhes uma carta, admoestando-os por terem-na utilizado.
Ou seja, entendamo-nos: esta gente não cumpriu as suas obrigações e procurou intimidar quem – mais uma vez – lhes recordou que não há volta a dar: que é sua a responsabilidade de garantir a boa gestão dos procedimentos escolares - todos os procedimentos escolares. É, evidentemente, sua a responsabilidade de assegurar aos professores a possibilidade de marcarem as suas reuniões. Têm de andar aos papéis. Serão ao menos bons nisso?
Pois em vez de pedirem desculpa por um lapso mínimo, que todos compreenderiam, não, a sua atitude foi condenar quem lhes lembre aquilo que nem devia ser lembrado a ninguém.
Mas, digo-vos, nem é sequer esta perseguição pidescazita que mais me custa. O que é intolerável é pensar que:
1 - alguém andou a descortinar quem são os professores que convocaram reuniões naquele papel que ali apareceu, não se sabe de onde, nem por que mãos,
2 - alguém demorou 10 minutos a escrever e policopiar um texto a vociferar contra esses professores que, notoriamente, não têm responsabilidade nenhuma no que se passa, (digo-vo-lo com segurança),
3 – alguém instruiu e ocupou funcionários para garantir a distribuição desta carta pelos "horríveis professores que".
Pergunto-me: será que o tempo desta gente é diferente do meu? Não haverá mais nada em que se ocupem? A sua vida é preenchida com estas insignificâncias? Não há um restinho de humildade que lhes desça à consciência e admitam simplesmente que não fizeram o que deviam e que mereceram o protesto?
Será que passaram horas, dias, sem ir à sala de professores? Ou será que foram à sala de professores mas simplesmente não ligaram, ocupados que estavam em saber-se legitimamente desrespeitados? Será que no tempo em que se ocuparam na sua própria indignação não tinham, em segundos, recolocado mais um papel ridículo no lugar do anterior, desciam depois ao seu olímpico gabinete, fechavam a porta para que ninguém os visse e pintavam reciprocamente as caras de verde, por se terem exposto desta forma tão insignificante ao ridículo? Ou então, lembrei-me agora: riam. Simplesmente riam. Punham uma folha nova e riam com o disparate. Não. "The plot thickens". Decidem arvorar em virgens desfloradas. Enrugam as sobrancelhas e batem com mãos viris numa mesa perplexa. Formidáveis.
Pergunto-me: haverá possibilidade de, no fim destes meses todos de transe colectivo, não terem ainda aprendido rigorosamente coisa nenhuma?
Ou será que esta gente sente que só eles têm o direito de pespegar em lugares públicos, lugares oficiais, lugares de estilo, papéis ridículos com poemas ridículos, assim a armar ao sábio, como se tivessem alguma autoridade ética ou profissional para insinuar ou ensinar o que quer que seja a alguém?
Como já por aqui expliquei, tornou-se-me completamente prescindível desenrolar a quantidade e qualidade dos incumprimentos de gestão que abala a vida da escola onde, com os meus colegas, teimo em continuar a ensinar. É um combate desigual, quotidiano, contra as mais inconcebíveis inépcias. Todos os dias me explicam coisas inexplicáveis.
Uma ausência obrigatória levou-me a não estar em contacto tão imediato com a realidade desta escola. Quando regressei pude perceber que aquela que, de repente, se tornou a minha mais premente perplexidade era partilhada com estupor resignado por todos os meus colegas que, como eu, exercem, ou tentam exercer, as funções de direcção de turma.
A coisa pode contar-se assim: em 1993, quando se inaugurou a escola, e durante alguns anos, utilizava-se umas folhas de papel, designados mapas de faltas, onde penosa e demoradamente se registava cada falta de cada aluno. Tiveram poucos anos de vida. Para alívio colectivo, estes mapas foram substituídos por bases de dados cuja implementação exigiu adaptação e formação antecipada e consistente. Tal como na nossa escola de então, estes mapas desapareceram depois das outras escolas todas; extinguiram-se da face da terra educativa, como dinossauros burocráticos. Tarefa tão obsoleta como fastidiosa, ocupava tempos preciosos dos professores e onerava estupidamente as finanças públicas.
Pois ao chegar à escola percebi que muitos dos meus colegas começavam a sentir necessidade de regressar a esses papéis. Perguntei. Responderam-me. Vamos entrar em Novembro e, na EBI Sto Onofre, não existe nenhum instrumento de registo de faltas de alunos. Descrente com a situação, tive oportunidade de inquirir por que razão não existe agora nenhuma forma de “tirar as faltas” aos alunos. Foi-me explicado o seguinte, se não ipsis verbis, ao menos com a maior precisão:
“Como o próprio nome indica, nós somos apenas uma comissão transitória. Estávamos à espera do resultado desta providência cautelar. Como não sabíamos se íamos continuar, decidimos que não iríamos tomar decisões definitivas sobre a aplicação informática para gestão dos alunos, comprometendo quem viesse a seguir a nós.”
A pergunta que se impunha era: “Mas, se não queriam tomar decisões, por serem transitórios, por que razão tomaram a decisão – vinculativa – de suprimir um procedimento funcional, com provas mais do que dadas e que todos operam com a maior naturalidade desde há anos, sem apresentar qualquer alternativa?”
A resposta foi: “Tem razão, mas estamos à espera que outra aplicação apareça, entretanto. Deve estar quase a chegar”.
A pergunta óbvia é: “Mas, em que ficamos? Não disse que não tomariam quaisquer decisões definitivas por serem transitórios e inutilizam a principal ferramenta de trabalho da escola? Vão comprometer quem vier a seguir a vós com essa outra aplicação?”
A resposta foi inconsequente e redonda. Nada omito. Inconsequência e redondez. Foi-me apenas dada a garantia que no próximo dia 30 de Outubro tudo se esclarecerá numa reunião convocada para o efeito.
Apresentei o meu protesto por terem inutilizado, apenas porque nunca a quiseram estudar, uma base de dados que esta escola tem em execução. Como não aprenderam a trabalhar com ela, decidem suprimi-la, talvez para não estarem na dependência de ninguém. Na dependência de quem sabe trabalhar com ela, por ter aprendido. E suprimem esta aplicação acreditando que possam fazê-lo sem apresentar alternativas. Será que, sinceramente, esta gente secretamente acreditou mesmo que era possível gerir um ano escolar inteiro, um período que fosse, sem uma base de dados para registo de faltas?
Enfim, adverti para a indispensabilidade de tempos de adaptação a novos procedimentos, manutenção e de formação. Referi a necessidade de não pulverizar os dados dos alunos por várias bases de dados para evitar duplicação de tarefas. Ficou tudo dito.
Cumpre dizer que não conheço, nunca testemunhei semelhante displicência perante tamanha irresponsabilidade. Nenhum professor pode neste momento registar ou justificar faltas de alunos. Nenhuma pauta pode ser impressa com o cômputo de faltas. Nenhuma comunicação aos encarregados de educação pode ser remetida. Está inutilizado o acesso de pais e alunos ao total de faltas dos seus educandos. Nunca nada parecido com isto aconteceu numa qualquer escola que eu conheça.
Não sei o que possam os encarregados de educação pensar disto. O seu silêncio, já não é apenas longo. Torna-se, cada dia que passa, conivente.