Os blogs do Paulo Prudêncio e do Paulo Guinote disputam o primeiro lugar na votação dos melhores blogs de 2011 do Aventar.
Cada um no seu galho. Vá... ide lá botar o voto.
Lembrar o holocausto nazi significou durante muito tempo a necessidade de clamar um definitivo “Nunca mais”. Infelizmente, os casos do Ruanda, Congo, Sudão, Burundi, Kosovo, Timor Leste, Iraque, Darfur, Chechénia provam-nos que a opinião pública foi cândida em achar que o horror nazi servira de terapia de choque – a solução final – para a humanidade. Não serviu.
No próximo dia 27 de Janeiro, no foyer da Escola Básica Integrada de Sto Onofre, em Caldas da Rainha, será feita durante toda a manhã a apresentação pública de trabalhos dos alunos, orientados por vários professores (História, Língua Portuguesa, Educação Visual e Artes Performativas) sobre o tema: apresentação de um vídeo com dramatização de cartas de condenados à morte, exposição de uma reprodução em grandes dimensões de um desenho encontrado em Auschwitz, feito clandestinamente por Mieczyslaw Koscielniak, prisioneiro polaco e leitura de poemas sobre o holocausto nazi, tudo acompanhado do devido enquadramento histórico.
Convida-se todos os interessados em acompanhar esta iniciativa, e agradece-se o pregão.
Rui Correia, Clara Botelho, Marco Silva, Dulce Nunes, Isabel Seno, João Henriques, Ana Paula António, Filomena Ruivo e Paulo Sousa
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Veja como este dia foi comemorado em anos anteriores:
Em Novembro de 2005, o dia 27 de Janeiro foi proclamado pelas Nações Unidas “Dia Internacional de Comemoração em Memória das Vítimas do Holocausto”. Sessenta e sete anos depois da libertação dos campos de extermínio e de concentração nazi, os alunos e professores do 9º ano de escolaridade da escola básica integrada de Sto Onofre associam-se a essa comemoração.
Judeus, prisioneiros de guerra, homossexuais, prisioneiros políticos, testemunhas de Jeová, deficientes físicos e mentais, entre 1942 e 1945 o Estado nazi colocou toda a sua máquina burocrática ao serviço de uma industrialização da morte dos chamados “indesejáveis”. Mesmo nos momentos em que a guerra se revelou impossível de vencer, a obstinação de executar milhares de pessoas nunca foi suspensa. Mesmo na fuga, nas terríveis “marchas da morte” (entre Outubro de 1944 e Abril de 1945) foram executadas centenas de pessoas incapazes de dar mais um passo por fome, cansaço ou doença.
Nada nos prepara para as imagens que nos ficam da vida nestes campos de prisioneiros. Muitas das fotografias, filmagens, todos os milhares de testemunhos que hoje possuímos, devidamente preservados para sempre, revelam-nos uma única conclusão: o homem nazi reinventara o inferno na terra.
Fuzilamentos, enforcamentos, exaustão, injecção letal, fome, tifo ou câmaras de gás pertenciam ao quotidiano bárbaro destes homens, mulheres e crianças.
Com risco da sua própria vida, num lugar de selvagem atrocidade, desenhar ou pintar eram razões mais do que suficientes para a execução ali mesmo no lugar. Mesmo assim, pequenos desenhos continuaram a ser feitos por mãos trémulas, às escondidas, em papéis roubados aqui e ali, com pequenos lápis de carvão surripiados, ou com carvão e penas de aves.
De tudo o que poderia ser invocado para recordar a imponente máquina de execução nazi, decidimos escolher um pequeno desenho, encontrado em Auschwitz, feito num cartão, clandestinamente em 1943 por Mieczyslaw Koscielniak, um estudante de pintura. Decidimos ampliar, engrandecer, magnificar, não apenas um desenho, mas um gesto.
É um esboço muito rápido, registando uma situação frequente em Auschwitz, o transporte de cadáveres. Mas é muito mais do que isso.
Num mundo onde desenhar se transforma num acto de heroísmo e de resistência, quisemos com este gesto significar que, de tudo o que pode ser dito sobre o horror nazi, o mais fundamental é lembrar aquele momento solitário de um prisioneiro que sabe que arrisca a sua vida apenas por desenhar.
E que, visto do céu, todo o gigantesco campo de extermínio (Vernichtungslager) Auschwitz é minúsculo quando comparado com a vontade humana, furtiva e imortal, de traçar um pequeno desenho.
E que, apesar de todos os horrores, de todas as atrocidades cometidas nesse lugar, é apenas de um diminuto e corajoso desenho, de uma semente de humanidade, que os jovens e os professores falarão, recordarão e homenagearão sessenta e sete anos depois.
A morte do Pedro Osório entristeceu-me mais do que suporia. Ainda há dias aqui me referia ao seu último trabalho como "imperdível". Não sou, nem nunca fui um apreciador do Pedro Osório compositor mas sempre supus secretamente que se ele, como outros que neste país pequenino trabalham a música, pudesse ter dedicado a sua a vida a ser exactamente o que queria na vida e não apenas a ser o que a vida dele quis fazer, muitos trabahos notáveis teríamos hoje para nosso imorredouro deleite. Mas a vida é o que é e ele há contas que se lhe fazem.
Assim sendo, restam-nos aqueles momentos em que nada já se tem a perder. A não ser a vida ela própria. E sai isto. Atente-se no Pedro Osório contido e cauteloso até aos 2'55'' e daí para a frente uma mostra do que o Pedro Osório realmente é e do muito que tinha para nos dar e não tivemos.
Se eu fizesse uma lista das melhores canções (composição, letra e arranjos) da história inteira do Portugal esta estaria nas primeiras linhas da lista.
Queria ter-vos deixado este ano com o sonho de dias melhores, mas estes são dias de insensatez. Não resisto a terminar o ano com uma tónica de tristeza, sim, mas lavada por uma gigantesca alegria de a ver interpretada com hipnótico encantamento. A arte, amigos. É apenas a beleza aquilo que nos fornece o privilégio de amar.
O hino mundial de tudo o que é bom fica bem num momento em que chega a parecer que o sonho é para os exorbitantes.
Ouça-se esta minha nova predilecção Caroly Leonheart, acompanhada do Bill Mays e do grandinorme Eddie Gomez.
E aquele penúltimo acorde é...
Quem me conhece sabe o que eu gosto de boa escrita. Deixo-vos uma pérola de escrita para uma das coisas mais difíceis que há na vida: escrever para fazer rir.
Há dias falei-vos de como estes velhos estão novos. Ouvi, amigos, maravilhemo-nos, encurvemo-nos silentes, por termos esta riqueza:
Que gosto. Puro fausto. E, além disso, puro Fausto.
(e o zumbido?... delícia...)
- gaita, estou viciado -
Há gente que tem um dom. A Mariana Abrunheiro é uma mulher maravilhosa com um dom que não pode, nem vai desaperceber-se. Votar nela neste concurso é uma outra forma de dizer o óbvio. Eu já votei. Ouçam-na e perceba-se por que o devem fazer também.
Idem
Ide
Id
Se isto não vos fizer iluminar o dia todo, então considerem-se oficialmente falecidos.
Tem vindo a tornar-se claro que a nova direcção do partido socialista não consegue definir a identidade reformista que a elegeu. Não sendo militante socialista mas próximo que estou de muitos militantes socialistas das Caldas da Rainha, é perceptível que está quebrado o momentum de esperança que foi confiado, ainda por cima, a um dos amigos desta concelhia, desta federação. Crescentemente, vejo assumirem-se posições de frontal divergência perante a improcedência e mesmo a irrelevância das posições assumidas pelo secretário geral. Sendo esta uma concelhia que tradicionalmente privilegia a franja mais esquerdista do PS, este desconforto é patente.
Recordo um parágrafo fundamental proferido por António José Seguro, no momento em que vencera as eleições para Secretário Geral do Partido: "A vitória de hoje é a vitória do PS. Trata-se de uma escolha clara e inequívoca para iniciar o novo ciclo, um ciclo de mudança, no interior do PS e em Portugal. (...) Estou aqui para somar, para unir, assumindo por inteiro toda a história e todo o património do PS. Assumo os momentos felizes e menos felizes da nossa história, na certeza de que o futuro será melhor se aprendermos com os erros do passado."
Numa frase: esperava-se uma viragem determinada à esquerda.
Esperava-se uma assunção dos erros clamorosos e uma assunção das vitórias do passado. Esperava-se um ressurgimento do ideário do socialismo democrático, da verve republicana e da veemência ética: o retorno à escola pública e à afirmação das autonomias e à emancipação dos modelos de gestão, à defesa estrénua do sistema nacional de saúde, a uma acção social humanizadora e pragmaticamente solidária, à regionalização, à premência da cultura como factor de riqueza e emprego, à eficiência e simplificação do ordenamento administrativo, ao investimento na rede energética renovável, ao reforço da equidade e da inovação nos transportes públicos, a afirmação de um sistema de regulação da gestão pública, da responsabilização por gestão danosa e rigor penalizador, radical, perante a iniquidade fiscal.
Esperava-se uma reacção patriótica perante um orçamento geral do Estado, cuja orientação de voto é publicitada antes de qualquer negociação. Esperava-se um acolhimento de uma opinião pública indignada que precisa de um socialismo responsável e que tenha a coragem de cortar a eito. Um socialismo corajoso e solitário. Ao invés, temos uma sucessão errática de abstenções violentas.
Em época de incertezas há que saber comunicar com clareza. Comunicacionalmente, não se compreende o que é uma abstenção violenta. Mas não é impossível saber por que razão a abstenção foi violenta. Foi violenta para os militantes socialistas que a não compreendem, nem no modo nem no tempo. Aquela abstenção violenta-nos a todos.
Muitíssimo bem nas críticas dirigidas à intenção sancionatória e prisional do eixo Berlim-Paris, o Secretário Geral do PS teve o seu melhor momento até hoje quando condenou as lideranças dos restantes países do Euro que parecem letárgicas, num coma silente, perante o descalabro dos seus interesses nacionais, reféns de um directório que nem sequer finge não existir e que torna o presidente do Conselho Europeu um títere, um estafeta.
O caminho é esse. Mas é curto.
Mais: Portugal, não obstante, continua a existir e não se compreende que, no preciso momento em que se impunha que a nova direcção do PS se fizesse afirmar com novas caras, novas eloquências e novas empatias, aquilo que vemos é uma descaracterização identitária do novo PS, e uma constante presença de antigos ministros de Sócrates que se não furtam a comentar, mediática e diariamente, o que fazem os seus actuais sucessores. Desta forma, por mais críticos que queiram ser, aquilo que vemos é uma continuidade de um anterior PS que, sendo pretérito, continua activo e presente. É um absurdo que os ex-ministros de Sócrates sejam, mediaticamente, a face visível do "novo PS". Tal estratégia apenas impõe uma suicidária colagem do PS (velho ou novo, torna-se irrelevante) às opções iníquas e invertebradas que este governo PSD-CDS vem tomando.
A melhor coisa que o PS pode fazer é apresentar novos discursos, novas adesões, novas agendas, novas caras e novos méritos. Sair à rua e apear-se. Descer avenidas e empunhar os novos cartazes, consubstanciar um novo arco do poder. Estar junto das pessoas. Confiar-lhes a mão nem que fosse para uma salvífica palmatória.
A pior coisa que o PS pode fazer hoje é continuar a dar visibilidade a ex-governantes que todos identificamos com um passado, com uma herança de crise e de desemprego, cuja responsabilidade a direita se esforça por assacar em exclusivo ao Partido Socialista.
Ex-governantes que, reconhecidamente, não fazem mais do que acentuar junto do eleitorado o pior dos passados que António José Seguro, ao invés de "assumir" deveria "ultrapassar". Que é, afinal, aquilo que quem o elegeu dele mais esperava.
Um grupo de pessoas anda a reunir-se aos Domingos para discutir política no café do Centro Cultural e de Congressos nas Caldas da Rainha às 11 da manhã. A tertúlia é aberta a todos e dura hora e meia. Eu faço parte desse grupo, por achar que é esse hoje, mais do que nunca, o dever dos cidadãos activos, discutir política. É, aliás, esse o dever dos partidos políticos. Pôr as pessoas a discutir política. Era assim nos clubes parisienses setecentistas e eu simpatizo com essa visão. Uns liam umas coisas e depois levavam-nas para discussão com os outros. Acho isso uma coisa construtora, limpa e amiga. Não me seduz nada o cinismo, por mais útil que seja. Não me seduz nada o solilóquio em política. Gosto de estar com as outras pessoas. O local escolhido serve para dissipar veleidades partidárias. É uma comunidade de "discutores". Têm sido boas as conversas. Muitos disparates - geralmente meus - e muitas coisas válidas. Para dar alguma consequência às discussões, um dos convivas alinhavou um texto a que chamou "manifesto". Infelizmente, não me revejo nas suas proposições mais inéditas. Em todo o caso, como se trata de um manifesto em construção colectiva não me parece ilícito que publique aqui, com contributos de várias penas, uma versão esboçada de algo que eu aceitaria subscrever.
POR UMA DEMOCRACIA FORTE – UM SISTEMA EMPRESARIAL PÚBLICO RESPONSABILIZADO, RESPONSÁVEL E RESPONSABILIZADOR
Os acontecimentos recentes têm vindo a tornar perceptível que o exercício público das grandes concentrações financeiras produz, in facto, uma constrição da vivência democrática, criando insuportáveis pressões conducentes a uma degradação progressiva do valor do trabalho e à inviabilização do Estado Social.
O que aconteceu? Quais foram os erros que nos trouxeram aqui? A ideia de que as democracias parlamentaristas constituem sistemas políticos invulneráveis a poderes e interesses sectoriais, corporativos, ingerências de não eleitos é um erro que deve ser corrigido de imediato. Outro erro, crucial, foi a convicção de que era possível assegurar a inviolabilidade da vivência democrática, sem, por um lado uma constante, firme, exemplar correcção das anomalias corruptivas do Estado de Direito, em grande parte beneficiando de uma sufocação dos sistemas judiciais que acompanham, transigentemente, o progresso dessas mesmas práticas. Errado é também considerar-se viável a manutenção de um Estado Social sem que este desenvolva um braço económico dinâmico, inovador e empreendedor, consubstanciado num sistema empresarial público que se deixou descredibilizar e degradar, ao ponto de se tornar um sugadouro de dinheiros públicos e um peso para as sociedades. Em vez de ajudar a financiar o Estado Social, protegendo o valor do trabalho, o sistema empresarial público, transigente perante a dissolução dos seus princípios, tornou-se um dos principais responsáveis pela falência dos Estados.
Sem empresas públicas sólidas, o poder económico torna-se um exclusivo de forças internacionais privadas que perseguem, evidentemente, a restrição do poder de intervenção do Estado, não só no campo económico mas, também, no campo político. Sem poder negocial face às grandes concentrações internacionais de capitais e sem capacidade para se financiar com os resultados das empresas públicas, o Estado, convertido em entidade dependente da finança privada, não tem forma de enfrentar o compromisso totalitário das grandes concentrações internacionais em fazerem aumentar os seus lucros, desse modo exigindo aos Estados a constituição de regimes de excepção e amnistia fiscal absolutamente injustificáveis, numa perspectiva de equidade política e social. A tolerância das democracias perante a criação de enclaves de imunidade fiscal (offshores), representa uma violação grosseira do sistema democrático e uma iniquidade indefensável. Uma globalização económica sem um equivalente político reduziu a política a pouco mais do que uma caixa de ressonância dos grandes poderes económicos que, naturalmente não possuem capacidade nem latitude de acção para se permitirem considerar imperativos éticos que limitem a obtenção de rendimentos e a ampliação incontrolada do poder financeiro.
Esta fuga de capitais e a imposição de condições restritivas para o acesso a estes, inviabiliza financeiramente o Estado Social e reduz a democracia a um sistema decisório secundário, destituído de capacidade para enfrentar e regular a actividade financeira, gerando-se uma anomalia entitária que submete os Estados a uma perniciosa ditadura dos meios financeiros sobre o exercício da política e da Res Publica.
A forma de dissipar esta condição de dependência dos Estados perante a finança privada passa pela consolidação de um sistema empresarial público, capaz de se reformular em função das novas exigências geo-financeiras, em alinhamento permanente com uma capacidade de inovação e empreendedorismo capazes de competir em matéria de criação de riqueza com o sistema empresarial privado.
Importa para tal reconhecer definitivamente que o sistema empresarial público em Portugal não soube acompanhar a evolução das exigências económicas, tecnológicas, ambientais e sociais que a sua relevância impunha. A permeabilidade à corrupção, a tolerância pela incompetência técnica e a negligência grosseira de gestão foi ao longo das últimas três décadas o resultado inevitável não apenas de um recrutamento político e partidário dos gestores públicos mas de uma transigência danosa pela incapacidade de aplicar reformas conducentes à regularização das situações de défice financeiro. Há que reconhecer que se instituiu, com a placidez dos sucessivos governos, uma indulgência colectiva perante o desmazelo na gestão destes recursos.
Caminhar em frente exige, portanto, a constituição de um sistema empresarial público eficiente, desenvolto, promotor de riqueza e financeiramente estável.
Para tal é, em primeiro lugar, necessário que os rendimentos dos gestores públicos dependam, exclusivamente, da melhoria dos resultados económico-financeiros das empresas públicas, que devem gerir com autonomia e em plena concorrência no mercado.
Em segundo lugar, importa que o recrutamento destes gestores decorra no âmbito de uma selecção pública, transparente, em resultado de uma avaliação técnica e curricular a que possam concorrer todos os cidadãos nacionais, em igual qualidade de condição. Cada candidato apresentará um programa de acção, com vista à assunção plena das finalidades sociais e colectivas da empresa a que concorre, privilegiando-se uma minuciosa circunscrição do âmbito da sua intervenção e num plano verosímil, concretizador de medidas de sustentabilidade financeira do seu exercício.
Deverão ser criados fóruns públicos comunicacionalmente diligentes (telemáticos, presenciais, mediáticos) de participação livre e identificada com a segurança da protecção inviolável da identidade, onde todas estas deliberações, avaliações e nomeações possam ser publicamente escrutinadas, sendo esse escrutínio juridicamente promovido e defendido. O serviço público de comunicação deverá privilegiar estas formas de intervenção política e de escrutínio colectivo.
Dever-se-á estimular a criação, multiplicação e difusão de sistemas públicos de alerta e denúncia - de identificação reservada e/ou anónima - de práticas corruptivas e negligentes. Estimular o envolvimento dos cidadãos no aperfeiçoamento das práticas de gestão e nos serviços prestados passa por um acesso livre aos procedimentos de comunicação de ilícitos, bem como uma transparência e diligência na resolução destas irregularidades.
Cumprirá criar um sistema contínuo de avaliação dos marcos de gestão (milestones) patentes no plano de actuação apresentado pelo candidato a gestor público.
Importa que se crie em cada uma das empresas públicas, permitindo a participação livre pelos cidadãos, equipas de investigação permanente de alternativas de regulação do poder gestionário e um aturado recenseamento de improcedências executivas, com vista à sua imediata e permanente correcção.
Avulta de tudo o mais a imposição de transparência e publicitação dos exercícios orçamentais, devidamente simplificados e acompanhados da indispensável fundamentação que permita ao cidadão perceber com clareza as opções de gestão, o diligente percebimento de receitas e a circunscrição ponderada das despesas.
O volume, a opacidade e a inteligibilidade das matérias que hoje especializam todos os sectores da sociedade deve constituir uma das mais relevantes preocupações dos governos. A simplificação e compreensibilidade destes instrumentos de regulação constituem as mais significativas formas de incentivar o envolvimento dos cidadãos.
Deverá ser, assim, disponibilizado material pedagógico, formação e informação que permita a qualquer participante destes fóruns estudar e apreender, com a maior facilidade que as temáticas sectoriais permitirem, as especificidades das matérias próprias, acautelando o elitismo e o encerramento técnico e teórico dos fóruns.
As críticas ao défice informativo da democracia não cessaram de aumentar desde Anthony Downs, logo em 1957, passando, depois, pelos trabalhos da escola da Public Choice e pela teoria dos jogos, ao colocar a questão das assimetrias informativas entre representado e representante. O orçamento participativo e as sondagens deliberativas de James Fishkin são talvez as experiências mais conhecidas na tentativa de superação deste défice. Os conceitos e experiências de democracia participativa, preocupada com a devolução do poder aos cidadãos, bem como as reflexões e inovações no âmbito da democracia deliberativa, preocupada com o nível de informação e isenção que assiste à decisão, são dos conceitos hoje mais estudados da teoria política.
Cumpre a todos promover a intransigente, radical, sustentabilidade do Estado Social. Cumpre a cada um de nós assegurar o seu próprio papel na identificação de entropias e ilicitudes que esgotam e dilaceram o êxito do Estado Social e, acto contínuo, do Estado de Direito e da Res Publica.
A afirmação de uma rede de empresas públicas prestadoras de serviços e funções sociais indispensáveis, suportadas por práticas de gestão contemporâneas e emancipadas, integrando nas suas rotinas a abertura à participação livre e influente dos cidadãos, clientes primeiros, devidamente apoiados pelo braço legislativo, social e jurídico, exigindo a nitidez de objectivos, a utilidade das práticas de gestão e o asseio ético dos exercícios de gestão, constituem agentes enérgicos de regulação que permitirão estorvar a porção maior dos desvios à equidade, razão superior do fundo detrimento que o Estado Social hoje suporta.
Apelamos ao debate sobre o indispensável recobro do Estado Social e do sistema empresarial público, enquanto vectores fundamentais para se realizarem vastas reformas, em grande parte conducentes à revitalização dos valores do socialismo democrático e de um Estado social contemporâneo, tão diligente e pragmático, como humanista e solidário.
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Entretanto, a resposta portuguesa a este tipo de preocupações - a verdadeira monstruosidade tão silente como irreprimível - é a que os jornais desta manhã noticiam. Ora veja-se aqui, ou aqui...
Como é possível falar de folga orçamental de 2 mil milhões de euros, num país próximo da bancarrota (com 50% de possibilidades de atingir a impossibilidade de pagar os salários dos seus trabalhadores) é algo que me ultrapassa. Mas pretender que as contas estão feitas e que, de repente, integrar o fundo de pensões da banca ao Estado servirá para pagar dívidas da saúde é chamar-nos imbecis a todos.
Em primeiro lugar, porque é como se ignorássemos todos que esse capital é um capital reservado, um capital com destino. Se o usarmos, se o desviarmos do destino que lhe era atribuído - pagar as reformas dos funcionários da banca - teremos de o ir buscar a outro lado. Adivinhe-se onde. Os inevitáveis constrangimentos orçamentais que isto trará futuramente à segurança social serão a consequência incontornável desta manobra orçamental.
Em segundo lugar, porque este é o governo que, até para vergastar a oposição interna do psd, dizia que não iria recorrer a batotas (num alusão ao tempo em que para atingir a mítica fasquia dos 3% de défice Ferreira Leite vendia património do Estado a torto e a direito e vendia o próprio exercício da cobrança fiscal). Quem rege esta orquestra parece dirigi-la, de facto, sem pauta e sem orquestra.
Alguém dizia recentemente que temos no poder um bando de mentirosos. O que parece óbvio é a ninguém parece ser possível descortinar verdade alguma, nem presumir que aquilo que hoje se diga não seja contradito amanhã por esta hora. Parece ser tolerável em alguns meios políticos, inspirados talvez pela leitura d'O príncipe', a ideia pela qual eleger a mentira como forma de governo possa garantir resultados.
Mas até o mais maquiavélico dos seres sabe que, mesmo no ofício de mentir, é indispensável saber como se faz.
São absolutamente incontornáveis as obras recentes do Sérgio Godinho, do Fausto, do Pedro Osório. Há muito tempo que não via coisa estimulante por aquelas bandas, que isto de ser dinossauro leva muita gente a ficar-se por repetir o que antes se fez, não fazer nada ou dizer que antes é que.
Acabei de ouvir o cd da orquestra juvenil de Valado de Frades, com direcção do Adelino Mota, numa edição bastante cuidadosa. Arranjos muito bem conseguidos - parabéns, Adelino - para uma orquestra com estas características. Ali, bem no limite das aptidões, que é exactamente o que se espera de um projecto destes. Contidos, evidentemente, mas executores, os miúdos percorrem alguns clássicos como Autumn Leaves ou o Basin Street Blues mas introduzem o Thriller, o Poker Face, atravessando um corredor divertido onde se escuta o Funky town, Spider man, Sesame Street, Pink Panther theme, Stand by me.
Muito competentezinho e a mostrar que há muitas voltas a dar na formação de músicos em Portugal. Além do mais, um orgulho, evidentemente, ouvir ex-alunos meus. Agora, seria de prever, queremos mais.
Importante, a encenação de “Não se brinca com o amor” (Musset) de Jorge Silva Melo, apresentada no CCC há uns dias. Sou um seguidor do encenador desde há muitos anos. Conheci-o na Figueira da Foz, em 1982, como actor de um dos filmes da minha vida, “conversa acabada” do João Botelho. Admiro o seu percurso muitíssimo e tenho-o por um dos mais aprazíveis comunicadores vivos em Portugal. Nada menos. (E, além do mais, tem essa qualidade rara de ter sido amigo do Olímpio Ferreira, em cujo funeral nos encontrámos).
Voltemos à sua peça. Subordinada a uma regra de visível afectação, toda a interpretação vive da fidelidade à Comédie-Française setecentista, com elementos da Comedia dell’arte. O resultado é, por tão excessivo, bastante ilusório e não foram poucas as pessoas que, no final, interpretavam como overacting, aquilo que na realidade é um exercício de fidedignidade historiográfica. Por mim, gostei muito, mais pela lição de teatro do que pelo texto – um libretto romântico ao fim ao cabo, por tão operático (operetta). Um trabalho necessário.
Quando, na correcção de provas escritas dos meus alunos, vejo escrito que "a bipedia começou há quinze anos", fico meio zonzo a pensar onde estava eu em 1996. Passo à frente, com um riso parvo na cara. E, de repente, tudo se clarifica quando o Neanderthal, para melhoramento geral da fotografia, tomava há 40 mil anos atrás a pré-histórica decisão de desenvolver as suas "cordas focais".
Para quem diz que o euro terminou, fica aqui uma prova de que o regresso ao escudo já começou.
(perto de Porto de Mós)
Há, pelas minhas contas, quatro coisas em que, para além da profissão, ocupo grande parte da minha vida. São coisas que me impõem por vezes um zelo e um esmero que obriga a que outras que muito me agradam fiquem por fazer. O blog é um dos primeiros a ressentir-se. Não dá para tudo. Felizmente tenho momentos em que posso, mesmo que retroactivamente, prestar homenagem a instantes inesquecíveis que me vão acontecendo. Deixo aqui um ou outro que quero preservar.
O lançamento do livro do meu querido amigo Francisco Silva. Homem de cultura, discreto e crítico, que escreve um livro acerca de muitas coisas e que muito divertimento me trouxe. Mas, ainda mais do que o livro, a sala de amigos do Francisco que souberam responder à chamada que merecem todas as pessoas boas e apenas essas. Que belíssimo ambiente e que circunstância perfeita para ouvir a Isabel Xavier numa eloquente apresentação da obra.
O honrosíssimo e inesperado convite da Universidade de Coimbra para que lá fosse dizer umas palavras em representação - veja-se só a responsabilidade - de uma geração. Na companhia dos ex-reitores Doutor Carlos Reis, Doutor Fernando Rebelo e Ana Rute Silva, jornalista premiada do Público, vejo que, coimbrismos à parte (e não "aparte", como me corrigiu um amigo melhor), aquela coisa de passar por Coimbra é etérea, sim, mas eterna e, sobretudo, terna.
O concerto na Quinta das Lágrimas da maravilhosa Maria Schneider com a orquestra de Matosinhos.
Um enquadramento perfeito num final de tarde chilreante e encantador ("the most beautiful venue of this tour").
Com amigos que foram em excursão - bem numerosa por sinal - para ver uma diva (no melhor sentido) que, no final, ainda nos deu direito a confessar-lhe a nossa antiga predilecção, foi um momento que não se esquece.
Uma conferência, a convite da biblioteca escolar e da dedicadíssima Isabel Seno, que intitulei "e-Leitor" acerca da leitura em ipad, ebooks, tablets em local escolhido por mim (a mais deliciosa sala da minha escola). Um tema que geraria depois numerosas conversas com os alunos que querem mais. Veja-se só: alunos a reservar lugar em conferências (onde é que isto vai parar?). Inesquecível.
A brilhante (nada menos do que isso) defesa de tese da minha mulher que - como diria um amigo comum recém doutorado - "arrasou", não obstante a sofisticada exigência jurídica, arquitectónica e patrimonial do seu minadíssimo objecto de estudo: a recuperação dos pavilhões do parque D. Carlos I.
A manifestação de 24 de Novembro, feliz durante quase todo o dia e bastante agitada durante uma meia hora (já há alguns anos que me não via envolvido em cargas policiais) e que me fez regressar a um tempo que julgava desaparecido mas que insiste em retornar, creio mesmo que com menor brandura.
Aqui e ali, um ou outro pormenor criativamente mais inquietante.
Um destaque para o melhor cartaz que ali vi e que não consegui fotografar. Dizia assim:
"Não te preocupes. Está tudo bem."
Multiplicam-se até à estafa nas diversas subculturas mediáticas, impressas ou telemáticas, que hoje amamentam todo o tipo de frustrações, esperanças e cinismos, os relatos de corrupção e de violação da equidade democrática. Inimputáveis, forjadas e apócrifas na esmagadora maioria dos casos, todas estas denúncias constituem normalmente uma violação grosseira dos valores civilizacionais mais importantes da carta dos direitos humanos, nomeadamente, o de se crer inocente alguém que não seja condenado por quem de Direito.
Nas redes telemáticas, perante a incrível proliferação de tribunas, já todas se anulam na voracidade da delação improcedente, aumentando o grau de frustração de todos. Mesmo dos próprios delatores que percebem que da sua acção resulta uma mão cheia de nada. Não conheço um único processo judicial que se tenha iniciado com denúncias em redes sociais e que tenha sido procedente em matéria de corrupção. Há mais de vinte anos que habito o esférico universo das redes sociais. Durante anos fui residente diário, muito antes ainda de lhes ser dada essa designação. Conheço-lhes bem as manias, as possibilidades e o que possuem de anestésico para a acção política livre e responsabilizada.
Condenar longe dos tribunais este ou aquele e assim imolar na praça pública quem ao longe nos parece culpado é um acto de vandalismo cívico e não de arrojo. Não é verdadeiramente uma denúncia, porque não é feita em nome próprio aos órgãos competentes. É, meramente, é a fruição soez da inimputabilidade anónima. É ouvir falar das coisas, não as avaliar ou documentar, nem sequer cruzar qualquer informação, nem querer saber por que razão alguém a lançou para reprodução em cadeia e relançá-la na opinião pública sem mais contemplações. Trata-se de uma deplorável forma de vigilantismo confortável, preguiçoso e inimputável que ofende os valores essenciais de uma democracia capaz. Naturalmente, todo este afã delator vem sempre agasalhado de indignações várias e empertigados dedos indicadores.
O resultado prático deste abuso é o oposto do que se pretende. O resultado é a trivialização da denúncia das práticas corruptivas. O constante bombardeamento de verdades encharcadas de mentiras, este ensopado de meros erros casuais com enormíssimos erros judiciais impede-nos de conhecer o que quer que seja. Misturando tudo num caldo inextrincável de informação desconexa, tudo se há-de engolir sem se distinguir o paladar da verdade. É de manipulação mediática que falamos. A verdade mais fundamentada, quase sempre ausente destas correntes denunciantes, mistura-se com a falsidade soez e interessada, insondável nos seus desígnios originais. O resultado é não distinguir uma de outra, que é o epítome de toda a difamação. Sobretudo, trata-se do sequestro do direito à inocência.
Importa encontrar o fio de uma meada tão prolixa. Não parece estar a ser fácil suster a abstinência de denunciar quem legitime a justificadíssima frustração que todos sentimos e devemos sentir perante a usurpação grosseira da equidade. A equidade tem de constituir o Norte magnético de um cidadão. Não é aceitável a um cidadão e menos ainda a um político que ignore esta pulsão que hoje se testemunha nas redes mediáticas informais e nas ruas. Existe uma enorme propensão para a delação pública, infundamentada, mesmo que isso represente enveredar por práticas antidemocráticas de acusação improcedente, tudo, evidentemente, em nome da democracia. Fazer da opinião pública, velada e anónima, o púlpito sumário de condenação.
O célebre Speaker’s Corner de Hyde Park nascera no século XIX para que alguém que quisesse denunciar outrem o pudesse fazer, dando a cara e fazendo-o em liberdade, sem o risco de ser preso por isso. Diga-se que tal alforria nem sempre era garantida. A polícia tinha ordens para ser tolerante, até ao momento em que alguém usasse palavrões. Actualmente, as redes sociais são uma espécie de Hyde Park invertido: um hide parque - o parque dos escondidos. O lugar onde tudo se diz, mas no quentinho anonimato da irresponsabilização, onde tudo o que releva não passa de citação de um imprescrutável outrem.
Por cá as tribunas públicas procuram encontrar o seu lugar. Não parecem estar a ter grande sucesso. Não apenas são habitadas por meia dúzia de pessoas, como as coisas que por lá se dizem não tem qualquer validade prossecutória ou judicial. É conhecido desde que existem comunidades: toda a sociedade precisa das suas válvulas de escape. Não se minimize a importância dos fenómenos de massas e perceba-se a sua relevância para escoar frustrações estúpidas ou explosões sociais exorbitantes. São, também, fenómenos altamente vocacionados para a anestesia colectiva. São instrumentais para o propósito de desviar atenções. Evasão do real, no melhor e no pior sentido.
Cada uma destas denúncias só ocorre porque existe um desprestígio e uma desconfiança colectiva nos poderes judiciais. A morosidade kafkiana e a frieza processual que exalta a plutocracia na justiça, fazem crer que a inocência compra-se. E isso é ultrajante para um democrata.
É aqui que os partidos políticos devem fazer incidir a sua atenção e o seu desempenho social. Um partido político é um clube de pessoas que se encontram próximas na sua visão do que deve ser a forma de governo de uma comunidade. Deve ser, antes de mais uma escola de política. E deve abrir-se à comunidade para debater política. Por todo o lado, os partidos devem criar assembleias informais, tertúlias, de discussão de ideias. Abertas a todos, sem convite. À semelhança dos clubes políticos setecentistas. Clubes onde quem não sabia ler ouvia os que sabiam, para depois saberem melhor aquilo que dizem.
Um partido, todo o partido tem essa responsabilidade. Fazer com que as pessoas saibam melhor aquilo que dizem. Que tenham mais cuidado com aquilo que dizem. Isso é que é a liberdade. Isso é que é a política. Práticas de responsabilização individual. Pôr as pessoas a pensar, a discutir. E praticamente hoje não existe esse exercício de discussão política, pública e livre.
Sem lugar para ocupar, surgem, neste espaço vazio, as marchas de “indignados”, operações comunicacionalmente silentes, face à pulverização de mensagens e de razões para a indignação que as motivam. A manipulação destas demonstrações populares de milhares de pessoas tem sido notória. Os media conservadores esforçam-se por dar uma certa percepção do que é este movimento. As televisões esforçam-se por apenas dar a conhecer as posições folclóricas, extravagantes e mesmo absurdas de alguns dos manifestantes. Coisas como “acabar com toda a classe política”, “retirar todo o dinheiro dos bancos” ou “Nós somos os 99%” são expressões muito conhecidas e que servem um propósito de depreciar os manifestantes. (Por exemplo, nisto dos 99% basta ver quem são os accionistas das empresas para se perceber que um deles é o nosso vizinho do lado, alguém que nem sequer usa fraque, cartola e charuto). Afinal, quanto mais extremistas forem os indignados, os ocupantes, mais intolerantes seremos todos com esta gente. E, no entanto, quando nos juntamos a estas manifestações vemos por ali muita gente que sabe, precisa e serenamente, por que razão ali está. O movimento occupy é bastante sólido nos seus fundamentos e deve ser muito bem pensado e acolhido pelos partidos políticos. Especialmente os que se encontram no arco do poder.
Cada vez mais se ouve, de novo, as pessoas a dizer que “aqui não falamos de política”. Pois, é não só preciso falar de política, mas é indispensável fazer política. O objectivo das assembleias, das tertúlias políticas não pode ser o de arranjar mais militantes para o partido. O objectivo dessas discussões de ideias é o de permitir que haja lugares na cidade, na aldeia, onde as ideias sejam acolhidas na sua multiplicidade e na sua disparidade. Tertúlias que se não convertam em comícios. Onde cada um saiba conter-se no tempo de prelecção que lhe é facultado. Onde não haja convidados especiais. Onde todos vão por seu livre arbítrio, em liberdade.
Reuniões que saibam conter-se na sua dimensão reflexiva. Mas que sirvam para alguma coisa.
Que se elaborem textos relatores que sejam remetidos a todas as forças políticas no poder local, partidário, regional, nacional.
Que se traduzam esses textos.
Que se constituam comissões de relatores para entregar em mão algumas conclusões operativas, nomeadamente no que diz respeito à organização dos partidos e às posições tomadas por todos os partidos.
Que se publiquem cadernos de pedagogia política. Acessíveis na linguagem e na sofisticação.
Que se distribuam panfletos pelas ruas, pelas associações, pelas feiras.
Que se agite politicamente a comunidade.
Que se imponham os exemplos de gente que se não vende.
Que se ocupem os lugares institucionais de participação política, como as assembleias de freguesia e municipais.
Que se desocupe o conforto do lar ou da luz eléctrica de um computador e se ocupe o desconforto do debate político.
Que se não distinga civismo de política. O conceito de cidadania tem servido de porto a todos quantos temem ser políticos. Não é um porto. É um beco sem saída. Entregar um prato de sopa a um mendigo é fazer política. Não existe cidadania sem política. É um eufemismo pusilânime. Chegou-se ao ponto de ser prestigiante estar fora da política para fazer… cidadania.
Em todo o caso, não nos distraiamos: a única forma de acabar com a crise nacional e internacional, financeira e tudo, é vencendo eleições locais. Distinguir onde se encontram os entraves ao progresso e à democracia e combatê-los activa e pessoalmente in loco, in persona, in momentum. Se isso não passar pelos partidos, passa pelas ruas. A vantagem disto é, historicamente, nenhuma.
Há uma música do Sting que tem uma frase que sempre me divertiu: "Things can only get worse". Não há frase mais pessimista nem frase mais optimista.
Uma discussão divertida e acalorada no blog do Paulo Prudêncio a propósito da comparação entre o fim do império romano e os nossos dias suscitou-me um comentário que aqui reproduzo, com mais uma ou outra pitada de sal.
Caros amigos, permitam-me a intrusão para vos recordar algo que todos conhecemos de há muito: comparar civilizações é algo que conduz sempre ao mesmo desfecho: não devemos comparar civilizações. Sempre que o fazemos - e a tentação é muito grande por causa de uma coisa que se chama a apropriação da história que não passa de um revisionismo de conveniência aberto 24 horas por dia, 7 dias por semana e 365 dias por ano, fora os bissextos - sabemos de antemão que o que fazemos é seleccionar variáveis corroboradoras e ignorar variáveis pejorativas da nossa tese. E mais: admitir que possamos conhecer as variáveis todas, ou destrinçar as que realmente avultam. Se há coisa que aprendemos com os nossos dias é que ninguém domina as tais "variáveis". Por isso a tal "incerteza" do futuro, que tantos arengam.
Resta-nos apenas a força humilde e laboral de "tentar perceber".
Contudo, ávidos de certezas em tempos de incerteza, os historiadores do nosso tempo agora parecem ser os economistas. Ora, todos sabemos como isso tem corrido mesmo bem.
Curiosamente, ainda há dias um professor universitário me dizia como foi difícil encontrar para uma Faculdade de Economia um professor de História de entre os seus alunos. Tiveram de ir buscar um à faculdade de letras. Por aí se vê a serventia que os economistas dão à História e o que aprenderam com ela.
Sirvamo-nos da história como uma amante escarnecida. Boa para se dispor, para se deitar às nossas vontades, apenas quando nos for conveniente.
De uma coisa estaremos sempre certos neste exercício: a história dar-nos-á sempre razão. Infelizmente isso acontece pela simples razão de que não nos ensina razão nenhuma, residindo aí, justamente aí, a sua majestade.
Recebi ontem um mail que representa uma infelicidade. Nada mais do que isso. Mas é uma infelicidade de tal forma descomunal que a senti como reveladora do que devem fazer as pessoas de bem quando se propõem ocupar cargos para os quais, evidentemente, não foram talhados para ocupar. Recusar. É isso, apenas isso que devem fazer. Recusar os cargos para os quais são convidados apenas por essa espada pendente que as informa de que não podem ser bem sucedidas. E não podem porque estão ali contra alguém e não pelos motivos certos. Esta coisa de pensar que todos podem fazer tudo e que tudo depende de quando chega o convite ou a oportunidade é uma tragédia dos nossos dias, das nossas gentes, das nossas ambições. Conhecer os limites do que podemos fazer é sinal de maturidade. Só os mais velhos recusam coisas. Por isso me sinto tão bem junto deles. Por isso, emulando os velhos que admiro, já recusei duas ou três coisas grandes porque notoriamente careciam de outras competências que não as minhas. Maiores, melhores, do que as minhas. Ver instituições a definhar, a definhar, com cada vez menos probabilidades de alguma vez obterem resultados é algo penoso e deve-se a esse boçalidade descarada que é o de não perceber o tamanho, nem da areia e muito menos o da camioneta.
Ouvir o candidato a candidato republicano à presidência dos Estados Unidos da América a afirmar que a culpa de alguém não ser rico é dele mesmo e de mais ninguém, ("Don't blame Wall Street. Don't blame the big banks. If you don't have a job and you're not rich, blame yourself.") como ouvir Fernando Pinto, esse tropical presidente da TAP, a repetir que "a greve é uma coisa do século passado" (já o dissera em Março do ano passado para estarrecimento de muitos), é algo que ultrapassa o ridículo. É ignorante e perigoso. É que ambas as coisas são expressões que encontramos na mentalidade oitocentista, (e não do século passado, como o burro afirma); é um ditame taylorista, que se ensina nas cadeiras das escolas. Apenas por isso deveriam ambos ser imediatamente expurgados das responsabilidades que, gritantemente, não merecem ocupar. Deviam ser presos. Ao menos presos a alguma cadeira ao lado de um dos meus alunos. É a única cadeira onde merecem estar. É extraordinário que acusem os outros de uma obsolescência com os mesmíssimos argumentos obsoletos esgrimidos no século XIX.
É mais uma das circunstâncias em que o valor do ensino da história se revela nuclear. Não surpreende que seja a minha disciplina um alvo a abater, em tempos de "tecnocracia acima da política", sistema que apenas funciona na exaltação de passividade bovina colectiva. “Obedecer porque se deve obedecer”, dizia Mussolini. “Neofascismo financeiro” chamou-lhe, ontem, Lobo Antunes.
Conhecer história não permite aleivosidades destas. Até porque a história ensina-nos que, irremediavelmente,
Existem momentos em que os políticos têm a oportunidade de se converterem em estadistas. Creio que atravessamos um desses momentos. A ruptura com o legado do anterior governo, em muitos pontos condutor a medidas como as que foram anunciadas, poderia passar com a aplicação de medidas de exemplo igualmente draconianas. Interrogo-me sobre o que sucederia ao PS se exigisse hoje, já, o fim das pensões vitalícias dos deputados da assembleia da república e dos subsídios de residência e de integração para deputados, magistrados e outros altos responsáveis, etc... etc.... E que recusasse chamar a tudo isso 'amendoins'. Talvez seja altura de ver o partido socialista de novo sozinho em pé numa assembleia enquanto todos os outros se sentam. Não é a primeira vez que uma grande derrota cria o momentum para grandes vitórias. Não se trata de cavalgar a onda da indignação, trata-se de estar indignado. Como dizia o melhor cartaz que vi nas manifestações dos indignados, e que é uma verdadeira filosofia de vida: inevitável é a tua tia. Assistamos, pois.
O episódio da morte bruta de Kadhafi tem um detalhe que passou despercebido a muitos e que é revelador do ponto a que chegara o culto da personalidade naquela ditadura. Rodeado de uma chusma de homens enfurecidos, esbofeteado e torturado e finalmente executado (qual fogo cruzado qual quê…) Kadhafi vai repetindo aos torcionários que o irão matar pouco depois: “Haram, Haram” que significa “É proibido, É proibido”. Repare-se, mesmo no último instante, o ditador invoca a lei da sua inviolabilidade para se salvar. Não implora clemência, não insulta, antes reivindica a lei para, acriançadamente, impedir que os ferros com que matou, o matem agora a si. Espantoso.
Outra coisa: para quem se horroriza com o velório macabro e indigno do déspota líbio, recorde-se que não é menos macabra a repetição em todos os canais de televisão, até à exaustão, dos vídeos da captura angustiante do beduíno assassino.
Outra coisa, ainda, mais voltada para os educadores: como se fala às crianças sobre estes episódios de morte de uma figura pública por vingança?
Maravilhoso documentário, aquele que acabo de ver na rtp2 sobre a Ana Vidigal. Não sou, longe disso, um admirador da artista. Mas o documentário “Menina limpa, menina suja” estabelece entre nós e a atmosfera criadora da pintora um relacionamento concreto que nos conduz para o interior das perícias interditas do seu ofício.
Idiossincrasias ("o que há no campo é para ficar no campo") e disposições sociais ("só gosto de pessoas de mau-feitio") são o que menos importa. É a presença de um universo dissidente o que me mais atrai neste espantoso documentário. O intervalo entre a vida lá dentro e a vida cá fora. A menção penetrante de um ciúme que arrasto comigo desde que me conheço: o desejo de uma ausência permanente em relação ao que me rodeia. A capacidade de imersão de um mundo calafetado onde as dores minhas e os júbilos meus não dependam de rigorosamente ninguém.
O Mário de Sá-Carneiro referia-se, com precisão, a esse sigilo pessoal no seu "caranguejola":
- Ah, que me metam entre cobertores,
E não me façam mais nada...
Que a porta do meu quarto fique para sempre fechada,
Que não se abra mesmo para ti se tu lá fores!
Lã vermelha, leito fofo. Tudo bem calafetado...
Nenhum livro, nenhum livro à cabeceira -
Façam apenas com que eu tenha sempre a meu lado
Bolos de ovos e uma garrafa de Madeira.
(...)
Noite sempre plo meu quarto. As cortinas corridas,
E eu aninhado a dormir, bem quentinho - que amor...
Sim: ficar sempre na cama, nunca mexer, criar bolor -
Plo menos era o sossego completo... História! Era a melhor das vidas...
...
Um estado final e decadente de liberdade. Evidentemente, a generosidade que impele a vida de cada um de nós impõe roturas desejadas e amadas nessa clausura. Ambição improcedente, pois. Mas eternamente cobiçável. O alento, enfim, de toda a solitária singularidade criativa.
A propósito: um tema dos Weather report que fala exactamente deste estado de confinamento solitário indispensável a toda a produção criadora e que tem andado no meu carro a semana toda.
A coisa funciona assim. Um professor é avaliado, com aulas observadas, registos de desempenho devidamente documentados, em respeito integral com as disposições legais para a avaliação de professores. O professor relator entrega-se, como lhe compete, à escrupulosa avaliação do docente. Findo todo o processo de dois anos, decide atribuir-lhe, imagine-se, 8. Ou 9. Ou mesmo 10. Escolhamos o caso mais revelador: 10. O avaliando tem 10. O avaliador entrega, como lhe compete, o resultado da sua avaliação à comissão de avaliação.
E então o disparate começa a ficar mesmo perturbador.
Quando esta reúne para ratificar a decisão do relator, é imediatamente obrigada a alterar as informações fornecidas por quem avaliou, apenas porque, informaticamente, não pode lançar mais "excelentes". Ou seja, um professor que teve nota 10, verá a sua avaliação modificada para um valor fictício, apenas para que não surja a menção "excelente", mas sim a menção "bom", para desta forma se poder respeitar o cômputo autorizado de quotas de 5%.
E, de repente, alguém diz que o problema está na aplicação informática. Pois é. Não está. Nenhuma aplicação informática se faz a si mesma. Preside-lhe um algoritmo que é estabelecido não pelo informático, mas pelo gestor ministerial. Não se pode aceitar que uma comissão aceite alterar artificialmente e sem critério a nota de 10 para 7,9, sem saber explicar por que razão essa nota, e não outra qualquer, passa a ser o registo oficial do desempenho de um docente, que tem deste modo uma classificação que nenhum avaliador alguma vez lhe atribuiu.
Concretizando, esta prática é nada menos do que fraudulenta e significa que um professor que teve uma avaliação de "excelente" observada no terreno, nem sequer pode ter no seu registo o resultado da sua avaliação real. Passa a ter 7,9 em vez de 10, apenas porque a aplicação informática não aceita a informação que realmente corresponde à avaliação concreta e verdadeira que lhe foi atribuída por quem a lei exige que seja o seu avaliador durante dois anos de desempenho. Pelo contrário, exige-se à comissão de avaliação que modifique conscientemente os valores fornecidos pelo avaliador, dados que, simplesmente, deixam de existir. O seu trabalho e o do avaliando são completamente improcedentes. São alterados sem autorização e sem nenhum critério que não seja o de existir um aplicação informática que não permite que haja avaliados com informação quantitativa de 10 e qualitativa de "bom".
Trata-se, pois, de algo de estratosférico.
Mais. Não satisfeita com este falseamento consciente das classificações dos avaliadores e com a improcedência completa do trabalho dos relatores e avaliandos, surge a estapafúrdia questão das quotas. 5% de "excelentes" por grupos de avaliados, que muitas vezes há-de corresponder a grupos disciplinares. Isto significa que, em grupos que tenham 3 professores, 5% de 3 equivalha a 0,15. Como a lei exige que se arredonde este valor à unidade mais próxima, o resultado é simples de ver: nenhum professor desse grupo alguma vez poderá ascender à classificação de "excelente". Faça ou seja ele o que fizer ou fôr. Nunca terá ou será "excelente" aquele professor que pertença a um grupo disciplinar com reduzido número de docentes.
Mais. Num grupo como o de evt onde existe, e bem, o sistema de par pedagógico, será possível para os seus docentes atingir a menção de "excelente", simplesmente porque têm o dobro de professores daquela outra disciplina que, tendo o mesmo número de horas que evt tem, apenas conta com metade dos docentes para a leccionar.
Mais. Em escolas cujo número de alunos esteja a descer, as necessidades de docentes vão também reduzir, o que faz com que o número de professores necessário reduza também, o que provoca a diminuição de possibilidades de atingir a menção de excelente.
Mais. A reforma curricular que venha a diminuir o número de horas semanais a uma qualquer disciplina concorre abertamente para impedir objectivamente que os professores dessa disciplina, por serem em menor número face à redução de necessidades, possam atingir a menção de "excelente" e assim obter a desejada bonificação de um ano.
Ou seja, uma coisa é ignorar que os professores andam embrulhados com uma avaliação de desempenho que não tem efeitos rigorosamente nenhuns numa carreira que já congelou e não virá tão cedo a descongelar, tornando risíveis e nada menos do que isso todos os esforços ou voluntarismos de qualquer professor para corrigir ou para melhorar o que quer que seja dentro da sala de aula. Outra coisa diferente é perceber que o próprio sistema de avaliação impede que um professor, por melhor que seja, por mais que faça, consiga, ao menos ver no seu registo a verdadeira avaliação que lhe for atribuída pelo seu avaliador.
O mais certo é que depois de toda a sua "excelência", acabe por ver os seus colegas da comissão de avaliação a modificar-lhe, alpacamente, por razão nenhuma, as classificações que obteve no processo que atravessou ao longo de dois anos.
Fica a interrogação maior:
O que pensará o mais negligente dos professores de tudo isto? Como se apaga aquele sorriso que ele transporta todos os dias, sempre que pensa em avaliação, consciente de que a lei lhe confere tamanho grau de amnistia?
Havia sido ela quem me salvara de uma morte que todos consideraram certa. Retirou-me das ondas onde, exausto e desfalecido, me supusera disposto a descer à última paragem. Cuidou de mim, ela, dias a fio. As suas mãos, obreiras como abelhas, leves como véus, aliviaram-me o sangue, limparam-me a pele e venceram-me a febre. E tudo isto ela fez em segredo, por estar condenada a um esponsal imposto por seu pai. Escondeu a sua identidade por trás de um nome tão falso como cativante. Enamorou-se de mim quase tanto como eu dela. Regressado aos vivos pelas mãos desse amor, fui forçado, semanas depois, a regressar, sim, sem ela, para junto do meu Senhor, a quem jurei, como meu pai, fidelidade. Regressei em glória, vindo dos mortos, para o abraço aliviado do meu amo, que me enfeitou de honras. Sonhei infindas noites em voltar para ela. Senti-la em mim. E, entanto, nas voltas cruéis e impossíveis da vida, um acordo entre reis entregou a meu Senhor, a mão dela. Precisamente a dela. De todas as mãos de mulher, as dela.
Hoje vivo neste estado. Neste silêncio obrigado. Guardo o seu retrato escondido junto ao peito. Um peito, dividido entre o meu amor por um Senhor a quem a vida me entregou e o meu amor por uma Senhora a quem entreguei a minha vida. Para sempre